Spec Ops e o Coração das Trevas

Spec Ops capa

Spec Ops: The Line é o tipo de jogo que não se destaca por sua jogabilidade fluída ou gráficos primorosos. Simplesmente nos envolve em uma trama cheia de mistérios, dilemas e surpresas. Produzido pela Yage Development e publicado pela 2k Games, The Line é um game de tiro em terceira pessoa lançado em 2012. Apesar de ser o décimo primeiro jogo da série, nada tem a ver com os outros games da franquia.

joseph conrad

Inspirado no romance “O Coração das Trevas”, escrito por Joseph Konrad e publicado em 1899, The Line nos joga em uma narrativa semelhante a este livro, repleto de questionamentos e dúvidas sobre o que é certo e errado, enquanto nos aprofundamos cada vez mais em nossa missão e inevitavelmente nossas próprias reflexões.

Outra obra que também bebeu da mesma fonte foi o filme “Apocalypse Now”, dirigido por Francis Copolla e lançado em 1979, considerado pela crítica como um dos melhores filmes de todos os tempos.

apocalypse now

Vou fazer algumas comparações entre as três obras para esclarecer melhor a história de The Line. Recomendo que tenha zerado o game pois vou entregar boa parte dos acontecimentos e a proposta do game é deixar você só descobrir ao decorrer do jogo. Também recomendo assistir Apocalypse Now para que consiga absorver  melhor o texto, fora o fato de que ele dá uma boa ilustrada para com o livro de Joseph Conrad.

É interessante ler o livro também pois vão conseguir enxergar algumas semelhanças com o jogo e com o filme de Copolla. Já aviso de antemão que é uma obra difícil de ler dada a sua linguagem e um dos motivos que me fizeram demorar a escrever sobre The Line.

Personagens principais e suas semelhanças

Spec Ops Walker

Em Spec Ops: The Line fazemos o papel do capitão Martin Walker, acompanhado do sargento John Lugo e do tenente Alphanso Adams, compondo o esquadrão Delta Force. Eles tem a missão de encontrar e se possível resgatar a 33ª tropa, dada como desaparecida em uma missão em Dubai, Emirados Árabes, após uma tempestade de areia.  A tropa estava no comando do coronel John Konrad, militar condecoradíssimo que salvou a vida de Walker em uma outra missão em Cabul.

charles marlow

De início já temos as influências de Coração das Trevas e de Apocalypse Now: no livro de Conrad acompanhamos a trajetória de Charles Marlow, capitão de um barco belga que tem o ofício de levar uma carga de marfim para o continente africano, mais especificamente no  Rio Congo.

Marlow também tem a missão de “resgatar” Kurtz, um chefe de posto da empresa em que ambos trabalham de volta para casa, para a civilização. É dito que Kurtz enloqueceu e fez amizade com os nativos, sendo idolatrado por eles.

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Em Apocalypse Now acompanhamos a trajetória de Benjamin L. Willard, capitão do Exército Americano e veterano das Operações Especiais, requisitado para uma missão secreta: se emaranhar em plena Guerra do Vietnã e adentrar para o Rio Nung no Camboja para assassinar o Coronel Walter E. Kurtz, considerado um desertor e que estava vivendo entre os nativos, comandando a sua própria tropa.

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O ponto de partida é o mesmo nas três histórias: homens com a missão de encontrar um completo desconhecido mas ao mesmo tempo famoso por seus feitos e condecorações. Konrad em The Line, Kurtz em O Coração das Trevas e o outro Kurtz em Apocalypse Now. No caso de The Line, Konrad não chega a ser um completo desconhecido já que ele salvou a vida de Walker em uma outra missão.

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Para reforçar o óbvio é nítida a influência dos nomes nos personagens. John Konrad é claramente inspirado no autor Joseph Conrad e acredito que a troca da letra C pela K no sobrenome tenha a ver com o personagem Kurtz do livro, homônimo do Coronel de Apocalypse Now.

Narrativa de The Line

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Em The Line, logo no início temos a missão de procurar a 33ª tropa comandada por Konrad, que voltava de uma missão no Afeganistão e que voluntariamente se propôs a evacuar a cidade de Dubai. Konrad recebeu ordens de seus superiores para abandonar Dubai e ele não obedeceu. Pouco tempo depois uma forte tempestade de areia  acabou com a cidade, tornando a evacuação impossível. Konrad fez uma segunda tentativa de evacuação, porém o plano fracassou e resultou na morte de milhares de pessoas entre civis e soldados.

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Tal acontecimento dividiu a tropa de Konrad em duas, The Damned e The Exiles (Os Amaldiçoados e Os Refugiados), causando uma “guerra civil”. The Damned eram os soldados que se manteram fiéis a Konrad, vencendo a guerra contra os Exiles, que foram os soldados que se revoltaram com a falha monstruosa de seu ex-comandante.

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Com todos esses acontecimentos, o pânico e o caos se instalaram entre a população árabe e a tropa de Konrad se viu obrigada a aplicar a lei marcial, que é quando os militares ditam as leis e fazem o papel do Estado. Eles também deixaram expostos os corpos dos Exilados afim de evitar futuras insurreições e revoltas.

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Para complicar ainda mais, um pequeno time da CIA chamado Grey Fox, tem a missão de investigar o que aconteceu com a 33ª tropa e apagar todos os seus vestígios. Tal time também formou um comando armado composto pelos árabes chamado “Refugees” (Refugiados), que em um primeiro momento confunde o time de Walker com a 33ª tropa, abrindo fogo.

Povos subjugados

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Nas três obras o discurso principal é o racismo e a xenofobia. Homens “civilizados” subjugando homens “selvagens”. Na trajetória dos personagens das três obras eles se deparam com situações parecidas: Marlow de Coração das Trevas vê o povo africano sendo explorado pela companhia belga para que trabalhem cada vez mais para concluir a construção de ferrovias. Por conta da total falta de fiscalização e desencontro de informações, além de uma boa dose de burocracia, diversos excessos ocorrem  das quais resultam em escravidão e genocídio do povo negro.

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Francis Coppola em Apocalypse Now acaba trazendo o mesmo discurso que Conrad usou para escrever  O Coração das Trevas. No filme o cenário é a Guerra do Vietnã,  em que Willard vê e descreve o desencontro de informações entre os soldados norte-americanos, além dos abusos cometido por eles com o povo vietnamita.

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Em The Line essa mesma proposta também é aplicada, porém de forma mais contemporânea e com uma ótima jogada. O povo árabe é o subjugado e o palco da narrativa é Dubai. Atualmente os árabes sofrem grande preconceito, por conta de ataques terroristas promovidos por radicais islâmicos em países europeus e nos Estados Unidos, além de diversas outras questões e acontecimentos. Como somos atacados por guerrilheiros árabes logo no início do game, invariavelmente acabamos sendo tomados pelo sentimento de que eles são os vilões do game, mas estes são apenas peões armados por agentes da CIA.

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Dubai é conhecida como uma das cidades mais ricas e desenvolvidas do planeta. Possui uma arquitetura deslumbrante, com estabelecimentos extremamente luxuosos. Imaginar tal cidade devastada por uma tempestade de areia e uma guerra interna, criando uma espécie de distopia foi um toque de mestre. No filme de Coppola e no livro de Conrad, os países explorados eram lugares pouquíssimos desenvolvidos. Em Spec Ops na tese é extremamente o contrário, apesar do lugar se encontrar totalmente devastado.

Influências

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Não só na narrativa que The Line se inspira em O Coração das Trevas e Apocalypse Now, mas também em alguns conceitos. Da metade do jogo em diante o clima da campanha vai ficando mais pesado, com uma atmosfera mais obscura. Walker, Lugo e Adams vão perdendo o humor do início do game e ficando cada vez mais frios e abalados psicologicamente. Seus corpos vão ficando cada vez mais desgastados e seus semblantes mais sombrios, como se estivessem sendo engolidos pelas trevas a medida em que se aprofundam em sua incursão.

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Os combates também vão adquirindo uma atmosfera de caos, com um tom mais apocalíptico. Isso vai se refletindo primeiro nas músicas tocadas (o game possui uma ótima trilha sonora), que vai do clima de ação de Hush de Deep Purple, ao tom dramático das guitarras de Mogwai em Glasgow Mega Snake. Depois, esse caos vai ficando mais nítido visualmente nas batalhas, com tempestades de areia cada vez mais cruéis e batalhas com uma atmosfera maior de trevas.

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Também temos um personagem no game claramente inspirado no fotojornalista de Apocalypse Now: Radioman. Um jornalista que trabalhou com Konrad em uma outra missão e que tem sua total confiança. Radioman debocha de Walker e seus companheiros ao longo das missões, além de tocar músicas dos anos 70 (fazendo uma clara referência a época da Guerra do Vietnã), como The First Vietnamese War de The Black Angels ou Nowhere to Hide de  Martha and The Vandellas.

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O fotojornalista de Apocalypse Now (o personagem não tem nome) é um homem muito próximo de Kurtz, o lendário Coronel. Ao encontrar Willard e seus companheiros ele conta sobre Kurtz como se fosse um homem místico. Exatamente a mesma ideia que temos de Konrad em The Line: Um homem intocável. O fotojornalista também possui uma personalidade um tanto quanto insana, assim como Radioman.

Detalhes extras

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Alguns detalhes da história são dados nas telas de loading, além de algumas dicas sobre armas. Conforme vamos avançando o jogo e a história ficando cada vez mais pesada, essas mesmas telas nos jogam frases que nos fazem refletir e até nos sentir culpados pelos acontecimentos. Achei uma excelente jogada que acaba nos proporcionando uma imersão maior com a história.

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Também temos itens colecionáveis no jogo chamados Intel, ou Inteligência, que são objetos que fornecem  as mais diversas pistas sobre os acontecimentos do jogo. Esse objetos podem ser diários, gravadores e até mesmo pedaços de documentos, que revelam não só as impressões pessoais de Walker, mas de outros personagens, além de seu estado mental e suas motivações. Lembra um pouco os Voxofones de Bioshock Infinite, e é essencial pegar todos para obter detalhes maiores da história.

Papo Furado

Finalmente terminei esse texto sobre Spec Ops. Primeiramente eu dedico esse post ao leitor Vinícius que me deu a sugestão. The Line me surpreendeu e é um ótimo game. Como é um jogo meio confuso de se jogar por conta de não entendermos nada do que se passa no começo, eu demorei um pouco pra zerar. Fora o fato de ter aparecido Life is Strange na frente que me fez deixar  The Line um pouco de lado. Também tiveram uma série de fatores que me fizeram demorar a escrever esse texto e peço desculpas pelo hiatus gigantesco.

No mais é isso galera. Quem não jogou vai conseguir desfrutar melhor, pois já vai compreender os acontecimentos logo de cara (algumas coisas que acontecem eu não revelei então vale a pena) e acredito que quem já zerou vai jogar de novo com outros olhos, assim como eu quando tive a compreensão total da história. São 4 finais possíveis, o que nos dá motivo pra zerar mais de uma vez. Não esqueçam de mandar sugestões, posso demorar mas sempre levo em consideração e prometo não demorar demais na próxima.

Um forte abraço e muito obrigado.

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2 comentários sobre “Spec Ops e o Coração das Trevas

  1. Eu já havia lido essa matéria há um bom tempo atras, porém decidi voltar aqui e ler novamente. É nesses momentos que passa um filme na nossa cabeça, você lembra daquela cena que ficou sem entender e pensa, “Nossa! Como eu não havia pensado nisso antes?!”. Parabéns, Gabriel, já falei isso e volto a repetir: você escreve e explica maravilhosamente bem. Continue com esse trabalho incrível.
    Ah! Eu não poderia esquecer de deixar uma recomendação: Metro 2033 e Metro Last Light. São ótimos jogos, baseados nos livros de Dmitriy Glukhovskiy. Ficaria muito feliz se escrevesse sobre, mas como são jogos baseados em livros, creio que vá demandar muito tempo.

    Curtido por 1 pessoa

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